Sábado, 19 de Julho de 2008

Achados no baú (10)

 

 

                                                                                                                                                                                              Nesta periodicidade mais espaçada que já aqui foi justificada anteriormente em relação à frequência e número de posts publicados em O Sítio do Jazz, dá-se hoje lugar à invocação de uma crítica inicialmente publicada no suplemento DNMais do Diário de Notícias  (30.01.99)  sobre dois grandes discos saídos do génio de Clifford Brown, o malogrado trompetista prematuramente desaparecido, apenas com 25 anos de idade.
 
 
 
 
Os sons de uma época
 
A programação editorial das majors mais importantes, traduzida no actual boom de reedições para todos os paladares, se, por um lado, é paradigmática dos processos pelos quais se procuram criar expectativas artificiais no mercado  – no sentido de, em última análise e consoante hábeis estratégias macroeconómicas, suscitar a acumulação do máximo de lucros com o mínimo de investimentos –  amplia, por outro lado, a possibilidade de novos públicos  (e, portanto, novos consumidores!)  terem acesso a obras de referência.
 
Nenhum mistério rodeia, assim, o novo lançamento  [1999]  de Study in Brown e More Study in Brown, da EmArcy, apenas aproximadamente década e meia após a sua primeira reedição em CD: recupera-se, de uma penada, o trabalho já então realizado, poupa-se qualquer esforço suplementar ao desprezar a mera possibilidade de reformulação ou actualização factual e musicológica das notas e informações discográficas e nem sequer se aproveita a generosa capacidade do suporte CD para acoplar, num único álbum, os dois inicialmente reeditados. Elementar!
 
No caso português, excluindo a meia dúzia de privilegiados que tenham tido acesso à caixa de 10 CDs com a obra completa de Brown para a EmArcy, é esta porventura a primeira vez que os nossos amadores de jazz «normais» têm à sua disposição estas gravações históricas já que, segundo tudo indica, pelas informações recolhidas, elas não terão sido lançadas entre nós na primeira ocasião.
 
Trata-se de parte significativa das sessões realizadas durante o curto mas riquíssimo período do contrato de Clifford Brown com a EmArcy e nas quais está em plano de evidência o fabuloso quinteto originalmente criado na Califórnia de parceria com Max Roach e ainda composto por nomes de peso como os saxofonistas Harold Land ou Sonny Rollins, o pianista Ritchie Powell e o contrabaixista George Morrow.
 
Em primeiro lugar, é necessário dizer-se que, tendo sido inicialmente influenciado por Dizzy Gillespie e Fats Navarro, Brown rapidamente impôs o seu natural talento na criação de um estilo próprio e inteiramente original, a ponto de se tornar um modelo de referência para as gerações de trompetistas que se lhe seguiram. Basta lembrar, contemporaneamente à sua carreira ou logo nos anos após a sua trágica e prematura morte, o surgimento de Lee Morgan, Booker Little ou Freddie Hubbard, eméritos e influentes continuadores e renovadores do seu estilo.
 
Um estilo caracterizado por uma flagrante exuberância técnica que permitia ao trompetista assegurar, sem comprometedores desvios do tempo, andamentos extremamente rápidos e ainda por uma sonoridade aberta e radiosa que devolvia ao trompete o papel de primeiro plano que havia sido imposto no jazz clássico por mestres da estatura de um Louis Armstrong.
 
O álbum Study in Brown contém nove peças essenciais do extraordinário quinteto de Clifford Brown/Max Roach e que são, também, as primeiras gravadas por este grupo em Nova Iorque, em Fevereiro de 55. Em More Study in Brown, pelo seu lado, deparamos com oito novos takes descobertos mais tarde, alguns deles alternativos e dispersos por outras compilações, mas não constituindo, neste caso, desnecessárias repetições dos primeiros.       
 
                                                                                                                                                                            Claramente apostado na afirmação de uma estética implantada no período do hard-bop, este quinteto estabelecia, entretanto, algumas interessantes pontes com o chamado jazz west coast, não apenas pela especial configuração de certos temas e arranjos instrumentais mas, porventura também, pela presença de um saxofonista-tenor como Harold Land, um músico notável, oriundo da Costa Oeste dos EUA e ímpar pela sua reconhecida versatilidade estilística.
 
Exemplos claros desta evocação da estética west coast são, por exemplo, as versões de peças como Jacqui (R. Powell) ou Gerkin For Perkin (C. Brown), no primeiro dos dois álbuns, e ainda, de certa maneira, Flossie Lou, um admirável original de Tadd Dameron, no segundo. Mas os temas e arranjos de maior impacte que se impõem de forma inconfundível em termos de repertório são esses verdadeiros ícones sonoros de toda uma época, como Swingin’, Sandu ou George’ s Dillema, no primeiro álbum, e, ainda, Jordu e The Blues Walk, no segundo.
 
Do ponto de vista individual, Max Roach afirmara-se já, nesta época, como o mais «melodista» dos grandes bateristas em todo o jazz, com solos eminentemente percussivos e de impressionante inteligência e musicalidade, capazes até de traduzir, de forma admirável, a própria estrutura formal dos temas. Quanto a Sonny Rollins, ele transportava o fogo da intensidade emocional para o terreno onde imperava o tranquilo e delicado discurso musical de Harold Land, assim tornando possíveis duas expressões diversas do mesmo quinteto.
 
Mas era Clifford Brown, sem margem para dúvidas, a grande personalidade musical de todo o grupo: brilhante pela impetuosidade dos seus solos (atingindo a vertigem em Cherokee ou Swingin’), brilhante pelas longas frases das improvisações, traduzindo a infindável desmultiplicação das suas ideias melódicas (Flossie Lou, Jordu ou If I Love Again), e particularmente engenhoso e inventivo pela dialéctica tensão / distensão expressa na tão especial articulação das frases ligadas ou destacadas (If I Love Again ou I’ ll Remember April).
 
Enfim, com esta dupla Study in Brown, estamos perante dois álbuns-chave no período de consolidação do jazz moderno.

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:28
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